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June 30
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| June 18

Art by Joice
“Por acaso o cão que, após longos esforços,
logra por fim escapar,
não leva quase sempre consigo
um pedaço da sua corrente? ”
(Pérsio)
ELOS, CADEIAS, FEITIÇOS...
Carmo Vasconcelos
Existem certos momentos
Em que tudo se conjuga
Pra nos levar em lamentos
A buscarmos uma fuga
Nada resolve fugir
Pois por caminhos que andemos
As dores que ansiamos banir
Connosco as levaremos
Elas agarram-se à pele
Como réptil pegadiço
Ou tinta que num papel
Grava um amor de feitiço
Seguem-nos eternamente
Como ao cão que em liberdade
Leva elos da corrente
Que o prendeu sem piedade
Façamos pois aguarelas
D’elos, cadeias, feitiços
Sejamos pombas nas telas
Que exorcizam os enguiços
***
Junho/2009
| June 13

Homenagem ao Mestre Pessoa
no 121º Aniversário do seu nascimento
13/Junho/2009

POETAS
Carmo Vasconcelos
Poetas nos dizemos, tu e eu...
Mas a Divina Mestria
está para além do que somos...
Nossos versos... Poesia?
São apenas magros gomos
duma iguaria completa;
gotas breves
dum mar que imortalizou
o verdadeiro Poeta
Que a dor nunca nos doa
do poeta que não fomos
do estro que não floriu…
E bendigamos a asa
que ao de leve nos tocou;
poeira que se espargiu
e nós pegámos à toa
quando a “esquina dobrou”
o grande mestre Pessoa
Lisboa/Portugal
Ano 2003
| June 12

Art by Eneliram
OS LIVROS Carmo Vasconcelos Neles somos registados, nomeados e datados logo depois de nascer e deles somos riscados nessa hora do morrer E é um livro a nossa vida, bem difícil de escrever desde a chegada à partida sorte triste ou divertida que não é fácil escolher
Seguindo a palavra escrita, redentora e bendita o padre reza o sermão dá ao menino o baptismo e ao velho a extrema-unção Procurando conformismo nas horas de aflição o Santo Livro pegamos e lendo lendo rezamos pedindo consolação Noutras horas de amargura, se temos um livro à mão vamos juntos à aventura espairecendo nossa agrura e alegrando o coração Com eles podemos ser, sábios, poetas, doutores homens de leis, professores aquilo que se quiser... até livres pensadores Com eles podemos ser detectives e burlões saltimbancos, visionários soldados ou missionários partindo em grandes missões Nos livros tudo alcançamos dependendo da viagem sofremos, rimos, choramos neles achamos coragem e tudo o que mais buscamos Podemos até achar bons conselhos e mézinhas para maleitas curar e bruxedos para vizinhas que tiverem mau falar E em manobras fascinantes, amarrações para amantes que perderam o calor ou métodos mais tocantes para vencer no amor E até os cegos, senhores, apenas com os seus dedos podem ver neles mil cores descobrir os seus segredos e aprender novos valores Livros... Nosso ensinamento! São a palavra do Cristo dos homens de pensamento e do poeta que, ao tempo, foi mal aceite ou benquisto Com os livros enriquecemos, somos felizes, crescemos e nada pedem em troca na sua morada oca mora tudo o que queremos Calados ficam dormindo e só espalham seu lampejo acordando, refulgindo ao clarim de um desejo que busca saber infindo Leais a todo o momento, da nova era ou antigos ao nosso lado no tempo envelhecem sem lamento, companheiros e amigos!
***
Lisboa-Portugal
1996
| June 11

FLORES E CITRINOS
Carmo Vasconcelos
Uma aguarela de flores e de citrinos
Lembrou-me a vida ajardinada de azedumes
É sábio o Cosmos... e a nós, meros peregrinos
Não é dado mudar a Lei e seus costumes
Por aqui estamos pra provar fel e doçuras
Experimentar da viagem os vários sabores
E se um dia o caminho se faz de amarguras
No outro nos banhamos no mel dos amores
Mas quando tudo é doce o enjoo é fatal
E se a amargura não viesse em seu momento
Não teríamos o contraponto desse sal
Tempero da vida, experiência e crescimento
Como nos aperceberíamos da diferença
E alcançaríamos arroubos de alegria?...
- Olhai a natureza a gerar bem querença
Quando engravida a noite de um novo dia
Veja-se a maré alta a preceder a baixa
A benção do calor a derreter o frio
A bonança que após a procela se encaixa
E o mar que se faz lago depois de bravio
Louvemos essa mescla d'alegria e dor
Sejamos aprendizes co'a mestra alternância
E ajoelhemos ao Deus-Pai... Que em Divino Amor
Sabiamente faz constante essa inconstância
***
Lisboa/Portugal
Junho/2009
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Art by Denise Moura
"Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja"
(Augusto dos Anjos)
ALECRIM E AÇUCENAS
Carmo Vasconcelos
Varro do velho roseiral as folhas mortas
Fétido odor a poluir o meu jardim
Ervas daninhas corto rentes pelas portas
E preparo meu novo chão só d’alecrim
Renego encantos de paisagens cor-de-rosa
E o verde não mais atrairá os meus sentidos
Cores ludibriantes d’utopia duvidosa
Fatal cegueira pra olhos embevecidos
Colcha d’alecrim cobrirá os meus domínios
Fundas olheiras vestirão a sua cor
Na dor violácea das traições e abomínios
Só às lágrimas deixo plantio d’açucenas
Suaves cristais a matizar roxo torpor
Gotas de orvalho a sararem minhas penas
***
Lisboa/Portugal
Maio/2009
| May 31

Art by Elisa Santos
DIVINO MANTO
Carmo Vasconcelos
 
Por que, Deus meu, só agora baixaste
Sobre os meus ombros o manto prateado
De zibelina e estrelas salpicado?...
- Divina graça com que me afagaste!
Se é tanta a luz que dele se desprende
Que a minha alma aos fúlgidos da prata
Se queda muda a parecer-Te ingrata
Em êxtase plo brilho que rescende
Perdoa, Pai, se o coração habituado
Ao frio e desamor, tão machucado
Nem sabe agora como agradecer-Te...
De assombrado, só consegue dizer-Te
Em lágrimas, misto de espanto e prece
Graças, Senhor, plo manto que me aquece!
  
Lisboa/Portugal
Abril/04/2009
| May 30

NOVAS DANÇAS
Carmo Vasconcelos
Ai, que sufoco, me libertem destas eras
Não quero mais pianos, sonatas, sinfonias
Que venham outros sons, música das esferas
Novos cantos e danças, novas sinergias...
Cansei da harpa, da valsa e do minuete
Quero rock, samba, mambo, salsa, um fox
Descartar a cingida e pesada " toilette "
Não mais suspiros, a alma " inside a box "
Fartei de leques, falsos luxos e desmaios
P'la ignomínia dos prepotentes cavaleiros
Vista a miséria nas mansardas dos lacaios
Enquanto os mui nobres esbanjam altaneiros
Longe de mim velhas perucas e espartilhos
Podridão moral de opulência em mesquinhez
Renove-se o mundo de puros sons e brilhos
Em novas danças de igualdade e sensatez

Lisboa/Portugal
29/Maio/2009
| May 29

Winter 2, by missyg.jpg
TERRA DE NINGUÉM
Carmo Vasconcelos
Existe algures um espaço mudo
Um vale de silêncio sufocante
Onde, aquém do sonho, o sentir amante
Se contorse como em traje de entrudo
Terreno de despejo de ilusões
Passeio de fantasmas do passado
Leito do Ego insone e amarfanhado
Tremente como sismo em convulsões
Solo morto assombrado de lembranças
Onde em rompante se instalou a seca
E só a memória, por tão viva, peca...
Foi-se a chuva, cascata de bonanças
E as sementes prenhes de querer-bem
Abortaram na terra de ninguém!
***
Lisboa/Portugal
23/Maio/2009
| May 25

Art by Adília Oya
QUANDO TUDO DORME...
Carmo Vasconcelos
Oh! Que noite enorme
quando tudo dorme!
Sento-me no fundo
de mim… e o que ouço?
Que é mágico o mundo!
O fel e o desgosto
risco do papel
afogo num poço…
No amor e no mel
mergulho o meu rosto
Bebo na raiz
da árvore frondosa
vida e temperança
e como um petiz
furtando uma rosa
aspiro a inocência
toco a adolescência
verde e descuidosa…
Retorno à criança
que fui… tão feliz!
Oh! Que noite linda
que doçura infinda
que ternos seus beijos!
Dos tempos da infância
afago os desejos
sorvo-lhe a fragrância…
Na noite sem escolhos
sou meu imo aceite
e em terno deleite
fecham-se-me os olhos.
***
Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2005
Código do texto: T41569
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“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa
que fez a tua rosa tão importante”
Saint-Exupéri
A MINHA ROSA
(Contos de encantar)
*Carmo Vasconcelos*
Como pôde morrer assim a minha flor
Ainda ontem tão risonha e formosa
Mal caía a tarde, e de repente, a viçosa
Corola se fechou, murchando ao Sol-Pôr
Sabido é que à mãe-Lua as flores s’acolhem
Para repousarem do Sol que as amimou
Mas ao romper da alba a minha se finou...
- Já não há pétalas que os meus dedos desfolhem!
Era ainda tão jovem, fresca e bonita
A nossa relação – como paixão primeira...
- Será que água demais lhe deu a jardineira?
Que de alagada se afogou e ressuscita?...
Dizia ser eu a terra que a alimentou
Quando em moléstia brava quase pereceu
E eu torrões d’amor lhe dei e se reergueu
E ao calor do meu seio se regenerou
Não posso acreditar que pra sempre se foi
Que a sua terra amante deixou na solidão...
A esquecê-la me aconselha o coração
Ignorante que a saudade inda me dói
Prefiro crer que a minha rosa está dormente
(Como a princesa que na estória existiu
Enfeitiçada pela maçã que engoliu)
E que um beijo a traz à vida novamente!
Lisboa/Portugal
Maio/2009
| May 18

Arte Elisa Santos

Poesia
Carmo Vasconcelos
***
FIO DE PRUMO Carmo Vasconcelos
Cansei de buscar o Santo Graal Descortinar teu ser impenetrável Intento tanto quanto inviável Como calar esta paixão fatal
Não me assustam os tropicais calores Nem vendavais receio enfrentar Só muros de gelo pra me gelar No sangue meus ímpetos e ardores
É a palavra morta em tua boca Que me deixa perdida como louca Tornada viajante sem ter rumo
Falta-me a bitola, o fio de prumo Que nivele a paixão pra não ser pouca Nem demais para não soar a oca
***
In E-Book "Sonetos Escolhidos"
| May 16

Venus, Mercúrio e Cupido, by Chaperon, 1612
A Gramática do Amor
Carmo Vasconcelos
O Amor é substantivo abstracto
Porém tão real na sua abstracção...
Não tem gosto nem cheiro, sequer tacto
Mas dói dentro de nós até mais não
Dói na ânsia, na dúvida, na espera
Na ausência do prazer e em saudade
Esvai-se se o prendemos, qual quimera
E esvoaça se lhe damos liberdade
Ufano, nos reporta sem valor
Se o mimamos amorosos demais
E à mão nos vem comer se o ignoramos
Reveja-se a gramática do Amor
Que sejam suas leis consensuais
Concreto... Se leais o conjugamos
***
04/06/2007

In E-Book "Sonetos Escolhidos II
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Maternity - Pablo Picasso
FILHOS
Carmo Vasconcelos

Força que nos faz
Remover escolhos
Sufocar paixões
Desviar os olhos
Calar ambições
Força que nos faz
Secar os desejos
Coragem mostrar
Conseguir dar beijos
Em vez de chorar
Força que nos faz
Ir fundo na luta
Brigar por um pão
Morrer de labuta
Roubar? Por que não?...
Força que nos faz
Capaz desses trilhos
Só conheço uma
Igual a nenhuma
São os nossos filhos!
Do meu 1º livro "Ecos do Infinito"/1995
| May 08

Segundo o mito de Platão, no princípio todos os seres eram andróginos,
com uma metade feminina e outra masculina.
Por castigo de ofensas aos deuses foram divididos ao meio.
Trata-se, na verdade, de uma fábula, um mito encantador,
destinado a revelar um ponto muito profundo.
Sob essa perspectiva, o amor é literalmente a busca da outra metade.
Essa fábula tem implicações muito abrangentes
em termos da metafísica e da ética de Platão.
É um outro modo de afirmar que não somos seres completos,
e que os movimentos do amor são uma busca de complemento.
(In "O Banquete", de Platão)
*/*/*/*
O BANQUETE
Carmo Vasconcelos
Vestiste o meu roupão
Calçaste os meus chinelos
Deles aspiraste o meu afecto.
Deixaste neles teu cheiro e teus cabelos
E ainda ecoa no meu tecto
O teu bater de coração.
Bebeste do meu copo
Soubeste os meus segredos
Desvendei-te os meus enredos.
Fizemos amor de vinho e pão
De carne nos lambuzámos
E dentro de mim verteste a tua taça...
Havia acordes dum dengoso minuete
No fausto desse banquete
Sem sombra de ameaça.
Quantos risos, quanta festa
Antes e depois da sesta...
Caminhámos abraçados
Frente ao mar
Colocada a preceito
A caravela do sonho
Que pregaste no meu peito.
Mão na mão
Éramos do próprio Eros a encarnação.
E nenhum de nós queria saber
Se tudo isso se chamava amar
Para quê catalogar?...
Bastava-nos estar perto
E o resto do mundo era um deserto.
Quantos ais e madrigais...
O sangue se incendiava
E como brasas que ateiam com a aragem
Ardíamos juntos nessa viagem
De êxtases conjugais.
Mas tudo não passou duma miragem!
Morreram-me os olhos numa visão fatal
Ao ler os editais
Dos teus súbitos esponsais
Numa igreja virtual.
***
Lisboa/Portugal
Maio/2009 | May 05

Art by Terê Penhabe
VOZES DO MAL
Carmo Vasconcelos
Que lava é esta que nos entra pela portada?
Deuses pagãos que uivam cegos de razões
Odiosos ventos, chuva negra, saraivada
Cuspindo lama plas paredes e portões...
Nauseabundos répteis invadem-nos janelas
Jorrando baba imunda n’alvura dos tectos
E até as corujas no horrendo piar delas
Ousam poluir nossos recantos predilectos
Calai, deuses caídos, vossas pragas d’algoz!
Temei a lei de Deus e seu poder indómito
Ou estarão perdidos, rasgada a própria voz
Língua enrodilhada no lamaçal do vómito
Cessem o frenesim corujas agoirentas!
Não vos basta o luto nas penas de castigo?
Não sabem que ao piar vossas queixas nojentas
Perturbam a paz dos nossos céus índigo?
Seres rastejantes, aquietem-se do salto!
Esqueçam o gesto das alturas macular
Deixem voar quem pode... e sabe voar alto
Que é vossa condição pra sempre rastejar
***
Lisboa/Portugal
Maio/2009
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Ulisses e as Sereias , Herbert Draper
Pescador da barca bela/Onde vais pescar com ela/Que é tão bela,
Oh pescador? /Não vês que a última estrela/No céu nublado se vela?/Colhe a vela /Oh pescador!
Deita o lanço com cautela/Que a sereia canta bela...
Mas cautela /Oh pescador!/Não se enrede a rede nela...
"Barca Bela" (Almeida Garrett)
MEU AMOR É PESCADOR
Carmo Vasconcelos
CANTO I
Meu amor é pescador
Pesca da alma lamentos
Limos de mágoa e de dor
Em rede de sofrimentos
Tombam-lhe perlas de prantos
Do seu olhar marejado
Ao relembrar desencantos
Dum mar dantes navegado
Virgem da Boa-Viagem
Rasga-lhe a rede-tormentos
Ata-lhe engodo coragem
Na linha dos pensamentos
Dá-lhe rede de estesia
Pra içar do imo o tesouro
Essa arca da alegria
Que jaz em areias d’ouro
Que ele volte a olhar o mar
Sem sal que na f’rida doa
Embevecido o olhar
Numa gaivota que voa
Meu amor é pescador
Que venha a ele a viragem
Que afunde mágoas e dor
Virgem da Boa-Viagem!
CANTO II
Foi ao mar o meu amor
E o temporal o turvou
Onde era um céu viu terror
E temeroso atracou
Onde era azul viu negrume
E o verde se acinzentou
Foi como maré de lume
Que a onda branca queimou
Na sua alucinação
Viu-se amarrado na teia
Das vozes do coração
Duma amorosa sereia
Assustou-se, teve medo
Dessa tágide o prender
E dessa visão de enredo
Fugiu ao amanhecer
Não tinha rede a sereia
Nem anel de cativeiro
Que a navegantes enleia
E aterra um marinheiro
Cala a sereia seu canto
Silenciando a doçura
E de sal se fez o pranto
Petrificada amargura
Quebrou-se o encantamento
Ficou livre o pescador
Desse pesado tormento
Que era só canto d'amor!
***
Lisboa/Portugal
Abril/2009
| April 28

ATÉ AO RASGAR DA PELE... Carmo Vasconcelos
Próxima vislumbro do túnel a saída Amorosa luz que me chama e deslumbra Oculta a mão de Deus intuo na penumbra A conceder-me, magna, a ventura pedida
Caminho devagar... Não ceguem os meus olhos Do brilho tamanho que os faz cerrar de medo Que a vida é pródiga d’artimanha e enredo E menos abundam as bençãos que os escolhos
Contudo, impensável se afigura recuar Fascinada pela cor do facho que me impele A prosseguir no desvario de imaginar
A fome saciada na carne e coração Inda que haja treva até ao rasgar da pele Dessa luz... Maior que amor... Adoração!
***
Março/2009
In E-Book " Sonetos Escolhidos II "
| April 16

CADEIAS
Carmo Vasconcelos
Há cadeias invisíveis que mais prendem
Do que correntes d’aço em dureza
Finos liames, grampos que não fendem
A alma... Tal dos elos a leveza
São subtis laços sem nós prepotentes
Atados suaves sem linhas amargas
Embrulhos d’amor e paz oferentes
Soltos enlaces sem pesadas cargas
Que sejam as amarras fios de oiro
Filigrana c’o a força do marfim
Consútil d’um amor até ao fim...
Nunca o peso das cadeias seja moiro
Que leve um ser amado à insanidade
Na angústia pela luz da liberdade!
***
Abril/2009
In E-Book " Sonetos Escolhidos II "
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NINGUÉM É DE NINGUÉM
Carmo Vasconcelos
Ninguém é de ninguém, jamais se iluda
Quem presume ser duma alma o dono
Não a compra nem a jóia mais choruda
Nem rei que a seus pés tenha rico trono
Pertence a alma ao sublime reino
Onde sem c’roas reina o Divino
Onde o desapêgo é sagrado treino
E a posse maior exemplo Cristino
Nem eu te possuo, nem tu me possues
Inda que exales na minha almofada
Feitiços de jasmim e mangerona
Inda que em mim vertas ópios que flues
E eu os guarde em meu corpo, enfeitiçada
Jamais serei tua, nem de ti a dona!
***
Abril/2009
In "E-Book "Sonetos Escolhidos II "
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ALTERNÂNCIAS
Carmo Vasconcelos
Vens pra mim ora em pranto ora em riso
E eu choro e rio e vibro de emoção
Arbusto sou prostrado plo granizo
Ou girassol de enlevo ao astro-verão
Se vens montado em vagas alterosas
Contigo mergulho até às funduras
Se emerges em espumas bonançosas
Entrelaço-te em ondas de ternuras
E quando as asas se abrem no teu peito
Espero a tua volta em beatitude
- Que amor não se perde na altitude
Sei que em voo raso virás ao meu leito
E é nesse roçar de asas que declamam
Os versos maiores os que se amam
***
Março/2009
In "Sonetos escolhidos II"
| March 24

A PAR E PASSO...
Carmo Vasconcelos
Deixai passar o tempo e seu andor
Abram alas, enfeitem-lhe a passagem
Ajoelhai em sua honra com fervor
E ao seu poder prestem vassalagem
Que ele é o sábio rei que nos governa
E a cujas leis hemos de obedecer
Seria o mundo a mais louca baderna
Se o tempo ensandecesse a correr
A par e passo se constrói a vida
Tijolo aqui, mais uma pedra além
Que a pressa é fútil e nada sustém
Louvemos o rei sábio e artesão
Que nos modela a alma e o coração...
- Ao vagar do mestre a nossa guarida!
***
Março 2009
In "Sonetos Escolhidos II"
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O POETA... ETERNO SONHADOR
Carmo Vasconcelos
Há um mágico e estranho sortilégio
Nesse azulado-argênteo que nos banha
Irradiante atmosfera que assanha
Em nós as tentações do amor régio
É como se uma inundação alquímica
Alagasse o convés dos nosso íntimo
Tornando tudo o mais como pó ínfimo
Pra além da lua-sonho e sua mímica
É ela que desenha a ilusão
Na sombra projectada contra o chão
Dos sonhos ideais que alto esvoaçam
Mas recolhida a lua feiticeira
O poeta sonhador o sonho abeira
Dos áureos raios de sol que já o enlaçam
***
Março/2009
In "Sonetos Escolhidos II"
| March 03
A Vitória
Carmo Vasconcelos
Espantei o dragão de sete cabeças
Venci a serpente de mortal ferrão
Sem facas nem lanças, sem medo ou pressas
E tomei de assalto o teu coração
Fiz dele um castelo d’ameias douradas
(Da luta o troféu salvo dos escombros)
Sem túneis secretos, cadeias cerradas
Forrado d’azul, magia e assombros
Aclamei-te Rei do reino inventado
Onde o meu regaço será o teu pouso
E os teus desejos a vontade minha
Nele hás-de reinar comigo a teu lado
Minha servidão será teu repouso
Serei do meu rei escrava e rainha!
***
Lisboa/Portugal/1997
(In E-Book “Sonetos Escolhidos”)
| March 01

QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Carmo Vasconcelos
Tudo parou de repente!
Jazem imóveis as pandeiretas
mudos os pianos e trompetes
Na pista
sangram flores desfolhadas
contorcem-se serpentinas descoloridas
máscaras abandonadas
Os confetti
são agora grãos de areia
que devolvem meus etéreos passos de dança
à crua realidade do chão
E dos estonteantes vapores do champanhe
restam-me agora os amargos de boca
na ressaca da bebedeira dos sentidos
Para onde foram
as marchinhas de mãos dadas
os sambas de olhos nos olhos
as rumbas apimentadas?…
Para onde foram
os dançarinos das máscaras caídas
as palavras cuspidas
em papelinhos adocicados?...
Tudo parou de repente!
Os calendários
devem estar doidos!...
É quarta-feira de cinzas
no meu domingo de Verão…
Dobram os sinos
enterrando um carnaval
d' amor de Primavera
E eu... Outono
moendo "as quatro estações”
nos braços de Vivaldi!...
***
Lisboa/Portugal/2001
In E-Book "Memorando de Fogo"
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