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"Rompendo Amarras"

Carmo Vasconcelos

CARMO VASCONCELOS

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Multipliquei-me, para me sentir

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar

a um deus diferente.

***

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



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LIVRO DE VISITAS

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June 30

ROMPENDO AMARRAS - BLOG PREMIADO

 

 

 

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Os links encontram-se rigorosamente em ordem alfabética

(Veja no Indice em em letra R - Rompendo Amarras) 

 
June 18

ELOS, CADEIAS, FEITIÇOS

 

 

Art by Joice

 

“Por acaso o cão que, após longos esforços,

                                    logra por fim escapar,

                   não leva quase sempre consigo

                        um pedaço da sua corrente? ”

 

                                               (Pérsio)

  

 

ELOS, CADEIAS, FEITIÇOS...

Carmo Vasconcelos

 

 

Existem certos momentos

Em que tudo se conjuga

Pra nos levar em lamentos

A buscarmos uma fuga

 

Nada resolve fugir

Pois por caminhos que andemos

As dores que ansiamos banir

Connosco as levaremos

 

Elas agarram-se à pele

Como réptil pegadiço

Ou tinta que num papel

Grava um amor de feitiço

 

Seguem-nos eternamente

Como ao cão que em liberdade

Leva elos da corrente

Que o prendeu sem piedade

 

Façamos pois aguarelas

D’elos, cadeias, feitiços

Sejamos pombas nas telas

Que exorcizam os enguiços

 

***

Junho/2009

 

June 13

POETAS... (Homenagem a Fernando Pessoa)

 

 

 

 

Homenagem ao Mestre Pessoa

no 121º Aniversário do seu nascimento

13/Junho/2009

 

 

 

 

POETAS

Carmo Vasconcelos

 

 

 

Poetas nos dizemos, tu e eu...

Mas a Divina Mestria

está para além do que somos...

Nossos versos...  Poesia?

São apenas magros gomos

duma iguaria completa;

gotas breves

dum mar que imortalizou

o verdadeiro Poeta

 

Que a dor nunca nos doa

do poeta que não fomos

do estro que não floriu…

E bendigamos a asa

que ao de leve nos tocou;

poeira que se espargiu

e nós pegámos à toa

quando a “esquina dobrou”

o grande mestre Pessoa

 

 

Lisboa/Portugal

Ano 2003

 

 
June 12

OS LIVROS

 

 

 Art by Eneliram

 

OS LIVROS
Carmo Vasconcelos
 
 
Neles somos registados, nomeados e datados
logo depois de nascer
e deles somos riscados nessa hora do morrer
 
E é um livro a nossa vida, bem difícil de escrever
desde a chegada à partida
sorte triste ou divertida que não é fácil escolher

Seguindo a palavra escrita, redentora e bendita
o padre reza o sermão
dá ao menino o baptismo e ao velho a extrema-unção
 
Procurando conformismo nas horas de aflição
o Santo Livro pegamos
e lendo lendo rezamos pedindo consolação
 
Noutras horas de amargura, se temos um livro à mão
vamos juntos à aventura
espairecendo nossa agrura e alegrando o coração
 
Com eles podemos ser, sábios, poetas, doutores
homens de leis, professores
aquilo que se quiser... até livres pensadores
 
Com eles podemos ser detectives e burlões
saltimbancos, visionários
soldados ou missionários partindo em grandes missões
 
Nos livros tudo alcançamos dependendo da viagem
sofremos, rimos, choramos
neles achamos coragem e tudo o que mais buscamos
 
Podemos até achar bons conselhos e mézinhas
para maleitas curar
e bruxedos para vizinhas que tiverem mau falar
 
E em manobras fascinantes, amarrações para amantes
que perderam o calor
ou métodos mais tocantes para vencer no amor
 
E até os cegos, senhores, apenas com os seus dedos
podem ver neles mil cores
descobrir os seus segredos e aprender novos valores
 
Livros... Nosso ensinamento! São a palavra do Cristo
dos homens de pensamento
e do poeta que, ao tempo, foi mal aceite ou benquisto
 
Com os livros enriquecemos, somos felizes, crescemos
e nada pedem em troca
na sua morada oca mora tudo o que queremos
 
Calados ficam dormindo e só espalham seu lampejo
acordando, refulgindo
ao clarim de um desejo que busca saber infindo
 
Leais a todo o momento, da nova era ou antigos
ao nosso lado no tempo
envelhecem sem lamento, companheiros e amigos!

***

Lisboa-Portugal

1996

June 11

FLORES E CITRINOS

 

 

 

FLORES E CITRINOS

Carmo Vasconcelos

 

 

Uma aguarela de flores e de citrinos

Lembrou-me a vida ajardinada de azedumes

É sábio o Cosmos... e a nós, meros peregrinos

Não é dado mudar a Lei e seus costumes

 

Por aqui estamos pra provar fel e doçuras

Experimentar da viagem os vários sabores

E se um dia o caminho se faz de amarguras

No outro nos banhamos no mel dos amores

 

Mas quando tudo é doce o enjoo é fatal

E se a amargura não viesse em seu momento  

Não teríamos o contraponto desse sal

Tempero da vida, experiência e crescimento

 

Como nos aperceberíamos da diferença

E alcançaríamos arroubos de alegria?...

- Olhai a natureza a gerar bem querença

Quando engravida a noite de um novo dia

 

Veja-se a maré alta a preceder a baixa

A benção do calor a derreter o frio

A bonança que após a procela se encaixa

E o mar que se faz lago depois de bravio

 

Louvemos essa mescla d'alegria e dor

Sejamos aprendizes co'a mestra alternância

E ajoelhemos ao Deus-Pai... Que em Divino Amor 

Sabiamente faz constante essa inconstância

 

***

Lisboa/Portugal

Junho/2009

 

ALECRIM E AÇUCENAS

 

 

Art by Denise Moura

 

 

 

 "Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro

A mão que afaga é a mesma que apedreja"

 

(Augusto dos Anjos)

 

 

 

ALECRIM E AÇUCENAS

Carmo Vasconcelos

 

 

Varro do velho roseiral as folhas mortas

Fétido odor a poluir o meu jardim

Ervas daninhas corto rentes pelas portas

E preparo meu novo chão só d’alecrim

 

Renego encantos de paisagens cor-de-rosa

E o verde não mais atrairá os meus sentidos

Cores ludibriantes d’utopia duvidosa

Fatal cegueira pra olhos embevecidos

 

Colcha d’alecrim cobrirá os meus domínios

Fundas olheiras vestirão a sua cor

Na dor violácea das traições e abomínios

 

Só às lágrimas deixo plantio d’açucenas

Suaves cristais a matizar roxo torpor

Gotas de orvalho a sararem minhas penas

 

***

Lisboa/Portugal

Maio/2009

 

May 31

DIVINO MANTO

 

 

Art by Elisa Santos

 

DIVINO MANTO

Carmo Vasconcelos

 

 

 

Por que, Deus meu, só agora baixaste

Sobre os meus ombros o manto prateado

De zibelina e estrelas salpicado?...

- Divina graça com que me afagaste!

 

Se é tanta a luz que dele se desprende

Que a minha alma aos fúlgidos da prata

Se queda muda a parecer-Te ingrata

Em êxtase plo brilho que rescende

 

Perdoa, Pai, se o coração habituado

Ao frio e desamor, tão machucado 

Nem sabe agora como agradecer-Te...

 

De assombrado, só consegue dizer-Te

Em lágrimas, misto de espanto e prece

Graças, Senhor, plo manto que me aquece!

 

 

 

Lisboa/Portugal

Abril/04/2009

  

May 30

NOVAS DANÇAS

 

 

 

NOVAS DANÇAS

Carmo Vasconcelos

 

 

Ai, que sufoco, me libertem  destas eras

Não quero mais pianos, sonatas, sinfonias

Que venham outros sons, música das esferas

Novos cantos e danças, novas sinergias...

 

Cansei da harpa, da valsa e do minuete

Quero rock, samba, mambo, salsa, um fox

Descartar a cingida e pesada " toilette "

Não mais suspiros, a alma  " inside a box "

 

Fartei de leques, falsos luxos e desmaios

P'la ignomínia dos prepotentes cavaleiros 

Vista a miséria nas mansardas dos lacaios

Enquanto os mui nobres esbanjam altaneiros

 

Longe de mim velhas perucas e espartilhos

Podridão moral de opulência em mesquinhez 

Renove-se o mundo de puros sons e brilhos

Em novas danças de igualdade e sensatez 

 

 

Lisboa/Portugal

29/Maio/2009

   

May 29

TERRA DE NINGUÉM

 

 

Winter 2, by missyg.jpg

 

 

TERRA DE NINGUÉM

Carmo Vasconcelos

 

 

Existe algures um espaço mudo

Um vale de silêncio sufocante

 Onde, aquém do sonho, o sentir amante

 Se contorse como em traje de entrudo

 

Terreno de despejo de ilusões

Passeio de fantasmas do passado

Leito do Ego insone e amarfanhado 

Tremente como sismo em convulsões

 

Solo morto assombrado de lembranças

Onde em rompante se instalou a seca

E só a memória, por tão viva, peca...

 

Foi-se a chuva, cascata de bonanças

E as sementes prenhes de querer-bem

Abortaram na terra de ninguém!

 

***

Lisboa/Portugal

23/Maio/2009

 

 

 

May 25

QUANDO TUDO DORME

 

 

Art by Adília Oya

 

 

QUANDO TUDO DORME...

Carmo Vasconcelos

 

 

Oh! Que noite enorme

quando tudo dorme!

Sento-me no fundo

de mim… e o que ouço?

Que é mágico o mundo!

O fel e o desgosto

risco do papel

afogo num poço…

No amor e no mel

mergulho o meu rosto

 

Bebo na raiz

da árvore frondosa

vida e temperança

e como um petiz

furtando uma rosa

aspiro a inocência

toco a adolescência

verde e descuidosa…

Retorno à criança

que fui… tão feliz!

 

Oh! Que noite linda

que doçura infinda

que ternos seus beijos!

Dos tempos da infância

afago os desejos

sorvo-lhe a fragrância…

Na noite sem escolhos

sou meu imo aceite

e em terno deleite

fecham-se-me os olhos.

 

*** 

Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2005

Código do texto: T41569

 

A MINHA ROSA (Contos de encantar)

 

 

 

                      “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa

                                  que fez a tua rosa tão importante”

                                                                    Saint-Exupéri

 

 

 

 

A MINHA ROSA 

(Contos de encantar)

*Carmo Vasconcelos*

 

 

 

Como pôde morrer assim a minha flor

Ainda ontem tão risonha e formosa

Mal caía a tarde, e de repente, a viçosa

Corola se fechou, murchando ao Sol-Pôr

 

 

 Sabido é que à mãe-Lua as flores s’acolhem

Para repousarem do Sol que as amimou

Mas ao romper da alba a minha se finou...

- Já não há pétalas que os meus dedos desfolhem!

 

 

 Era ainda tão jovem, fresca e bonita

A nossa relação – como paixão primeira... 

- Será que água demais lhe deu a jardineira?

Que de alagada se afogou e ressuscita?...

 

 

 Dizia ser eu a terra que a alimentou

Quando em  moléstia brava quase pereceu

E eu torrões d’amor lhe dei e se reergueu

E ao calor do meu seio se regenerou

 

 

 Não posso acreditar que pra sempre se foi

Que a sua terra amante deixou na solidão...

A esquecê-la me aconselha o coração

Ignorante que a saudade inda me dói

 

 

 Prefiro crer que a minha rosa está dormente

(Como a princesa que na estória existiu

Enfeitiçada pela maçã que engoliu)

E que um beijo a traz à vida novamente!

 

 

 

Lisboa/Portugal

Maio/2009

 

 
May 18

FIO DE PRUMO (PRÉMIO POESIA E ARTE)

 

 

Arte Elisa Santos

Poesia
Carmo Vasconcelos
 
***
 

FIO DE PRUMO
Carmo Vasconcelos


Cansei de buscar o Santo Graal
Descortinar teu ser impenetrável
Intento tanto quanto inviável
Como calar esta paixão fatal

Não me assustam os tropicais calores
Nem vendavais receio enfrentar
Só muros de gelo pra me gelar
No sangue meus ímpetos e ardores

É a palavra morta em tua boca
Que me deixa perdida como louca
Tornada viajante sem ter rumo

Falta-me a bitola, o fio de prumo
Que nivele a paixão pra não ser pouca
Nem demais para não soar a oca

***

In E-Book "Sonetos Escolhidos"

 
May 16

A GRAMÁTICA DO AMOR

 

 

Venus, Mercúrio e Cupido, by Chaperon, 1612

 

 

A  Gramática do Amor

Carmo Vasconcelos

 

 

 

 

 

O Amor é substantivo abstracto

Porém tão real  na sua abstracção...

Não tem gosto nem cheiro, sequer tacto

Mas dói dentro de nós até mais não

 

Dói na ânsia, na dúvida, na espera

Na ausência do prazer e em saudade

Esvai-se se o prendemos, qual quimera

E esvoaça se lhe damos liberdade

 

Ufano, nos reporta sem valor

Se o mimamos amorosos demais

E à mão nos vem comer se o ignoramos

 

Reveja-se a gramática do Amor

Que sejam suas leis consensuais

Concreto... Se leais o conjugamos

 

***

04/06/2007

 

 

In E-Book "Sonetos Escolhidos II 

 

 

 

FILHOS

 

 

Maternity  -  Pablo Picasso

 

FILHOS

Carmo Vasconcelos

 

 

 

Força que nos faz

Remover escolhos

Sufocar paixões

Desviar os olhos

Calar ambições

 

Força que nos faz

Secar os desejos

Coragem mostrar

Conseguir dar beijos

Em vez de chorar

 

 Força que nos faz

Ir fundo na luta

Brigar por um pão

Morrer de labuta

Roubar? Por que não?...

 

Força que nos faz

Capaz desses trilhos

Só conheço uma

Igual a nenhuma

São os nossos filhos!

 

 

 

Do meu 1º livro "Ecos do Infinito"/1995

 

May 08

O BANQUETE

 

 

 
Segundo o mito de Platão, no princípio todos os seres eram andróginos, 
com uma metade feminina e outra masculina.
Por castigo de ofensas aos deuses foram divididos ao meio.
Trata-se, na verdade, de uma fábula, um mito encantador,
destinado a revelar um ponto muito profundo. 
Sob essa perspectiva, o amor é literalmente a busca da outra metade.
Essa fábula tem implicações muito abrangentes
em termos da metafísica e da ética de Platão.
É um outro modo de afirmar que não somos seres completos,
e que os movimentos do amor são uma busca de complemento.

(In "O Banquete", de Platão)
 

*/*/*/*

 

O BANQUETE

Carmo Vasconcelos

 

 

Vestiste o meu roupão

Calçaste os meus chinelos

Deles aspiraste o meu afecto.

Deixaste neles teu cheiro e teus cabelos

E ainda ecoa no meu tecto

O teu bater de coração.

Bebeste do meu copo

Soubeste os meus segredos

Desvendei-te os meus enredos.

Fizemos amor de vinho e pão

De carne nos lambuzámos

E dentro de mim verteste a tua taça...

Havia acordes dum dengoso minuete

No fausto desse banquete

Sem sombra de ameaça.

Quantos risos, quanta festa

Antes e depois da sesta...

 

Caminhámos abraçados

Frente ao mar

Colocada a preceito

A caravela do sonho

Que pregaste no meu peito.

Mão na mão

Éramos do próprio Eros a encarnação.

E nenhum de nós queria saber

Se tudo isso se chamava amar

Para quê catalogar?...

Bastava-nos estar perto

E o resto do mundo era um deserto.

Quantos ais e madrigais...

O  sangue se incendiava

E como brasas que ateiam com a aragem

Ardíamos juntos nessa viagem

De êxtases conjugais.

 

Mas tudo não passou duma miragem!

Morreram-me os olhos numa visão fatal

Ao ler os editais

Dos teus súbitos esponsais

Numa igreja virtual.

 

***

 

Lisboa/Portugal

Maio/2009

May 05

VOZES DO MAL

 

 

 Art by Terê Penhabe

 

 

VOZES DO MAL

Carmo Vasconcelos

 

 

Que lava é esta que nos entra pela portada?

Deuses pagãos que uivam cegos de razões

Odiosos ventos, chuva negra, saraivada

Cuspindo lama plas paredes e portões...

 

Nauseabundos répteis invadem-nos janelas

Jorrando baba imunda n’alvura dos tectos

E até as corujas no horrendo  piar delas

Ousam poluir nossos  recantos predilectos

 

Calai, deuses caídos, vossas pragas d’algoz!

Temei a lei de Deus e seu poder indómito

Ou estarão perdidos, rasgada a própria voz

Língua enrodilhada no lamaçal do vómito

 

Cessem o  frenesim corujas agoirentas!

Não vos basta o luto nas penas de castigo?

Não sabem que ao piar vossas queixas nojentas

Perturbam  a paz dos nossos céus índigo?  

   

Seres rastejantes, aquietem-se do salto!

Esqueçam o gesto das alturas macular

Deixem voar quem pode... e sabe voar alto 

Que é vossa condição pra sempre rastejar

 

***

Lisboa/Portugal

Maio/2009

 

MEU AMOR É MARINHEIRO - CANTO I E CANTO II

 

 

Ulisses e as Sereias , Herbert Draper

 

Pescador da barca bela/Onde vais pescar com ela/Que é tão bela,

Oh pescador? /Não vês que a última estrela/No céu nublado se vela?/Colhe a vela /Oh pescador!

Deita o lanço com cautela/Que a sereia canta bela...

Mas cautela /Oh pescador!/Não se enrede a rede nela...

 

"Barca Bela" (Almeida Garrett)

 

 

MEU AMOR É PESCADOR

Carmo Vasconcelos

 

CANTO I

 

Meu amor é pescador

Pesca da alma lamentos

Limos de mágoa e de dor

Em rede de sofrimentos

 

Tombam-lhe perlas de prantos

Do seu olhar marejado

Ao relembrar desencantos 

Dum mar dantes navegado

 

Virgem da Boa-Viagem

Rasga-lhe a rede-tormentos

Ata-lhe engodo coragem

Na linha dos pensamentos

 

Dá-lhe rede de estesia

Pra içar do imo o tesouro

Essa arca da alegria

Que jaz em areias d’ouro

 

Que ele volte a olhar o mar

Sem sal que na f’rida doa

Embevecido o olhar

Numa gaivota que voa

 

 Meu amor é pescador

Que venha a ele a viragem

Que afunde mágoas e dor

Virgem da Boa-Viagem!

 

 

CANTO II

 

 

 Foi ao mar o meu amor

E o temporal o turvou

Onde era um céu viu terror

E temeroso atracou

 

Onde era azul viu negrume

E o verde se acinzentou

Foi como maré de lume

Que a onda branca queimou

 

Na sua alucinação

Viu-se amarrado na teia

Das vozes do coração

Duma amorosa sereia

 

Assustou-se, teve medo

Dessa tágide o prender

E dessa visão de enredo

Fugiu ao amanhecer

 

Não tinha rede a sereia

Nem anel de cativeiro

Que a navegantes enleia

E aterra um marinheiro

 

Cala a sereia seu canto

Silenciando a doçura

E de sal se fez o pranto

Petrificada amargura

 

Quebrou-se o encantamento

Ficou livre o pescador

Desse pesado tormento

Que era só canto d'amor!

 

***

Lisboa/Portugal

Abril/2009

 

April 28

ATÉ AO RASGAR DA PELE

 

 

 

ATÉ AO RASGAR DA PELE...
Carmo Vasconcelos

 

Próxima vislumbro do túnel a saída
Amorosa luz que me chama e deslumbra
Oculta a mão de Deus intuo na penumbra
A conceder-me, magna, a ventura pedida

 

Caminho devagar... Não ceguem os meus olhos
Do brilho tamanho que os faz cerrar de medo
Que a vida é pródiga d’artimanha e enredo
E menos abundam as bençãos que os escolhos

 

Contudo, impensável se afigura recuar
Fascinada pela cor do facho que me impele
A prosseguir no desvario de imaginar

 

A fome saciada na carne e coração
Inda que haja treva até ao rasgar da pele
Dessa luz... Maior que amor... Adoração!

***
Março/2009
In E-Book " Sonetos Escolhidos II "
  

April 16

CADEIAS

 

 

 

CADEIAS

Carmo Vasconcelos

 

 

Há cadeias invisíveis que mais prendem

Do que correntes d’aço em dureza

Finos liames, grampos que não fendem

A alma... Tal dos elos a leveza

 

São subtis laços sem nós prepotentes

Atados suaves sem linhas amargas

Embrulhos d’amor e paz oferentes   

Soltos enlaces sem pesadas cargas

 

Que sejam as amarras fios de oiro

Filigrana c’o a força do marfim

Consútil  d’um amor até ao fim...

 

Nunca o peso das cadeias seja moiro

Que leve um ser amado à insanidade

Na angústia pela luz da liberdade!

 

***

Abril/2009

 

In E-Book " Sonetos Escolhidos II "

 

NINGUÉM É DE NINGUÉM

 

 

 

NINGUÉM É DE NINGUÉM
Carmo Vasconcelos

 

 

Ninguém é de ninguém, jamais se iluda

Quem presume ser duma alma o dono

Não a compra nem a jóia mais choruda

Nem rei que a seus pés tenha rico trono

 

Pertence a alma ao sublime reino

Onde sem c’roas reina o Divino

Onde o desapêgo é sagrado treino

E a posse maior exemplo Cristino

 

Nem eu te possuo, nem tu me possues

Inda que exales na minha almofada

Feitiços de jasmim e mangerona

 

Inda que em mim vertas ópios que flues

E eu os guarde em meu corpo, enfeitiçada

Jamais serei tua, nem de ti a dona!

 

***

Abril/2009

 

In "E-Book "Sonetos Escolhidos II "

 

ALTERNÂNCIAS

 

 

 

ALTERNÂNCIAS

Carmo Vasconcelos

 

Vens pra mim ora em pranto ora em riso

E eu choro e rio e vibro de emoção

Arbusto sou prostrado plo granizo

Ou girassol de enlevo ao astro-verão

 

Se vens montado em vagas alterosas

Contigo mergulho até às funduras

Se emerges em espumas bonançosas

Entrelaço-te em ondas de ternuras

 

E quando as asas se abrem no teu peito

Espero a tua volta em beatitude

- Que amor não se perde na altitude

 

Sei que em voo raso virás ao meu leito

E é nesse roçar de asas que declamam

Os versos maiores os que se amam

 

***

Março/2009

In "Sonetos escolhidos II"

   

March 24

A PAR E PASSO

 

 

 

A PAR E PASSO...

Carmo Vasconcelos

 

 

Deixai passar o tempo e seu andor

Abram alas, enfeitem-lhe a passagem

Ajoelhai em sua honra com fervor

E ao seu poder prestem vassalagem

 

Que ele é o sábio rei que nos governa

E a cujas leis hemos de obedecer

Seria o mundo a mais louca baderna

Se o tempo ensandecesse a correr

 

A par e passo se constrói a vida

Tijolo aqui, mais uma pedra além

Que a pressa é fútil e nada sustém

 

Louvemos o rei sábio e artesão

Que nos modela a alma e o coração...

- Ao vagar do mestre a nossa guarida!  

 

***

 Março 2009

 

In "Sonetos Escolhidos II"

O POETA... ETERNO SONHADOR


 

 

 

 

O POETA... ETERNO SONHADOR

Carmo Vasconcelos

 

 

Há um mágico e estranho sortilégio

Nesse  azulado-argênteo que nos banha

Irradiante atmosfera que assanha

Em nós as tentações do amor régio

 

É como se uma inundação alquímica

Alagasse o convés dos nosso íntimo

Tornando tudo o mais como pó ínfimo

Pra além da lua-sonho e sua mímica

 

É ela que desenha a ilusão

Na sombra projectada contra o chão

Dos sonhos ideais que alto esvoaçam

 

Mas recolhida a lua feiticeira

O poeta sonhador o sonho abeira

 Dos áureos raios de sol que já o enlaçam

 

***

 

Março/2009

 

In "Sonetos Escolhidos II" 

 

March 03

A VITÓRIA

 

 

A Vitória

Carmo Vasconcelos

 

Espantei o dragão de sete cabeças

Venci a serpente de mortal ferrão

Sem facas nem lanças, sem medo ou pressas

E tomei de assalto o teu coração

 

Fiz dele um castelo d’ameias douradas

(Da luta o troféu salvo dos escombros)

Sem túneis secretos, cadeias cerradas

Forrado d’azul, magia e assombros

 

Aclamei-te Rei do reino inventado

Onde o meu regaço será o teu pouso

E os teus desejos a vontade minha

 

Nele hás-de reinar comigo a teu lado

Minha servidão será teu repouso

Serei do meu rei escrava e rainha!

***

Lisboa/Portugal/1997

(In E-Book “Sonetos Escolhidos”)

 
March 01

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 

 

 

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Carmo Vasconcelos

 

 

 

Tudo parou de repente!

 

Jazem imóveis as pandeiretas

mudos os pianos e trompetes

Na pista

sangram flores desfolhadas

contorcem-se serpentinas descoloridas

máscaras abandonadas

 

 

Os confetti

são agora grãos de areia

que devolvem meus etéreos passos de dança

à crua realidade do chão

E dos estonteantes vapores do champanhe

restam-me agora os amargos de boca

na ressaca da bebedeira dos sentidos

 

 

Para onde foram

as marchinhas de mãos dadas

os sambas de olhos nos olhos

as rumbas apimentadas?…

Para onde foram

os dançarinos das máscaras caídas

as palavras cuspidas

em papelinhos adocicados?...

 

 

Tudo parou de repente!

 

 Os calendários

devem estar doidos!...

 

 

É quarta-feira de cinzas

no meu domingo de Verão…

Dobram os sinos

enterrando um carnaval

d' amor de Primavera

E eu...  Outono

moendo "as quatro estações”

nos braços de Vivaldi!...

 

***

 

Lisboa/Portugal/2001

In E-Book  "Memorando de Fogo"

 

 

 
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Marisewrote:
 
Querida Carminho,
 
Mais uma vez me embriagando com a bela poesia.  Rompendo Amarras é um espaço literário onde o bom gosto, os sentimentos e as mais nobres inspirações têm a assinatura de uma mestra.  Sempre te aplaudindo e te admirando, desejo-te cada vez mais um caminho repleto de paz e de amor.  Aproveito para te deixar meus votos de um Feliz Natal e um Ano Novo de Esperança e Fé.
Beijos,
Marise Ribeiro
Dec. 12
Lenya Terrawrote:

 
 

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Minha amada maninha Carminho,

Que a Essência e o Amor Divino de Cristo Redentor
toque em cada canto de sua vida, renovando
e fortalecendo-te a cada passo, a cada ação,
iluminando e reerguendo-te em momentos ruins, a
cada dúvida,
esmorecimento ou desânimo.
Alegra-te, Cristo nos remiu de todos os nossos
pecados e todo que Nele crê, terá Vida em
abundância.

FELIZ PÁSCOA A VC, MINHA MANIN HA AMADA

E A TODOS  QUE TU AMAS!!!

JESUS VIVE EM NÓS!

Lenya Terra

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SALMO 115

“Amo ao Senhor, porque ele ouve
minha voz suplicante;
Porque inclina seu ouvido para mim
no dia em que invoco.
Cercavam-me laços de morte,
eram redes do Xeol:
Cai em angustia a aflição.
então invoquei o nome do Senhor:
“ Senhor , salva minha vida!”
O Senhor é justo e clemente,
nosso Deus é compassivo:
O Senhor protege os simples:
Eu fraquejava e ele me salvou.
Volta ao repouso, ó minha alma,
pois o Senhor foi bondoso contigo:
Libertou minha alma da morte,
meus olhos das lágrimas
e meus pés de uma queda.
Caminharei na presença do Senhor,
na terra dos vivos.
Eu tinha fé, mesmo ao dizer:
“ Estou por demais arrasado!”
Em meu apuro eu dizia:
“Os homens são todos mentirosos!”
Como retribuirei ao Senhor
todo o bem que me fez?
Erguerei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor,
cumprirei meus votos ao Senhor,
na presença de todo o seu povo!
È valiosa aos olhos do Senhor a
morte dos seus fiéis
Senhor, eu sou teu servo,
teu servo, filho de tua serva,
rompeste os meus grilhões.

Como retribuirei ao Senhor
todo o bem que me fez?
Erguerei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor,
cumprirei meus votos ao Senhor,
na presença de todo o seu povo!

 Photobucket

 

 
Mar. 22
Picture of Anonymous
Gui Oliva wrote:

Carminho querida: Como uma gaivota aprendiz de voejos  senti-me atravessando os mares, e aqui chegar.... em rodopios pelas belas artes, em sons especiais a bailar, um mergulho na literatura dei, e esta lindamente entrelaçada por essa dama que é a Poesia. E me assustei ao ver versos meus tão perto de Poetas Consagrados um, especial para mim, porque os seus rondaram, como amigos, a minha juventude e permanecem nesta envelhescência...Fernando Pessoa. Agradeço-te querida Carminho, por oferecer ao mundo um recanto como este, com a tua Poesia lírica, romântica, contemporânea como a principal semeadora neste terreno que irá cada vez mais florescer e frutificar. E te agradeço o carinho e a generosidade incentivadora por trazeres os versos desta aprendiz para cá. Aqui ficará parte  de mim mas voltarei sempre para beber nesta fonte do sublime. Beijos, Gui  

Aug. 19
Picture of Anonymous
Ilka Vieira wrote:

08 de junho 3:22

 
Querida Carmo Vasconcelos, que belo espaço! Admiro tua poesia e sinto que através dela transportas a tua força sem perder a delidadeza.  Sempre por aqui.
Beijos
Ilka Vieira
June 12

Carmo Vasconcelos

Occupation
Location
Interests
NOME LITERÁRIO: Carmo Vasconcelos
NATURALIDADE: Lisboa - Portugal
SIGNO: GÉMEOS
Carmo Vasconcelos desde sempre cultivou a paixão pela leitura e pela escrita. É autora de um livro de poemas intitulado "Geometrias Intemporais", publicado no ano 2000, e tem outros livros aguardando publicação em papel. Inéditos, muitos trabalhos, alguns espalhados por jornais e revistas e inseridos em diversas Antologias. Também aguardando publicação, o romance intitulado "O Vértice Luminoso da Pirâmide” que correu na Net, em folhetins, em http://groups.msn.com/ECOSDAPOESIA e difundido integralmente em http://ecosdapoesia.net/escritores/carmo_vasconcelos_prefacio.htm
Pela sua participação em vários Jogos Florais teve o privilégio de ganhar numerosos prémios e menções honrosas.
É membro da Associação Portuguesa de Poetas (onde já integrou os Corpos Directivos) e do Cenáculo Literário Marquesa de Valverde, nos quais já colaborou como júri de concursos literários.

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